quarta-feira, 7 de setembro de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Os dias do abismo

















Há dias em que nos sentimos assim: vazios por dentro. Como se a Terra tivesse desabado sobre as nossas cabeças e com ela levado qualquer vestígio de alma que nos habite, supondo que somos habitados por tal coisa. À superfície, um corpo a vaguear sem destino nem sequer objectivo, que apenas vagueia por não ter outro remédio.

Em dias assim, nada do que fazemos parece encaixar. O trabalho torna-se em algo monótono e quase irrelevante comparado com o abismo que nos suga, e a da concentração para o executar em condições aceitáveis é melhor nem falar...
A comida não desce e as noites são passadas em claro.
Os livros e a TV distraem por minutos, até que a cabeça imerge para junto da alma sugada e o que lemos são só palavras desconexas; o que vemos são só imagens soltas.

Os amigos não nos distraem; os convívios não nos roubam ao abismo. E se tentamos fugir ao desespero por uns momentos, ele teima em voltar.

E pensar que quem abriu o abismo não sabe nem como ele é.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O dia da entrevista



















O momento era solene: após meses de envios sucessivos de currículos, um telefonema para uma entrevista.
Todos os pressupostos vinham à cabeça: a indumentária, a postura, a tentativa de não esfregar as mãos, de não engasgar, de não ir cheia de tralha, de não parecer desajeitada, etc etc etc.

À chegada, a primeira surpresa: a morada indicada para o dito momento solene não era a da entidade empregadora, mas sim a da agência de recrutamento (que depois na prática acaba por ser entidade empregadora, mas isso são detalhes).
Com esta constatação, senti a pressão a aliviar e a ânsia da formalidade a diminuir. Umas perguntas, um teste psicotécnico, uma conversa descontraída.

Aceites as condições, há agora que aguardar pelo feedback da empresa-cliente.

Aguardemos, pois...

(A imagem foi "roubada" ao Pópulo)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Da chuva, dos livros e dos cães























O Porto estava ao rubro no último fim-de-semana. Difícil era mesmo escolher. Feira do Livro, FITEI, Serralves em Festa, animação variada na baixa...name it!

Parte da escolha já estava feita, com a ajuda do Ípsilon: "A Colecção Privada de Acácio Nobre", peça a exibir às 18h30 de sábado no Teatro Carlos Alberto. Antes, a Feira do Livro, e estava o plano delineado.

Em Braga, deixei o calor insuportável e a caravana do PSD. Chegada ao Porto, rapidamente percebi que os óculos de sol eram supérfluos e a camisola afinal até ia dar jeito.

A chuva apanhou-me, pois, em plena Feira...ao ar livre. Não é que a Avenida dos Aliados não fique ainda mais bonita povoada de livros, mas para quem se passeia sem guarda-chuva o cenário não é o melhor. Mas já que estava lá, que se dane a chuva! Ainda deu para comprar o livro de Raquel Varela sobre a história da intervenção do PCP no pós-25 de Abril e quase ser acusada de furto. Sim...

O simpático senhor que me atendeu explicou que o pagamento era feito numa área central, e que até lá eu podia "circular à vontade". Pois eu fiz jus à sugestão e circulei...até demais! Passei uma barreira quase imperceptível (depois dela a Feira continuava) e lá veio o simpático cavalheiro explicar que afinal não dava para circular tão à vontade quanto isso. Tudo isto sob o olhar desconfiado de um dos seguranças...

No percurso até ao teatro, nova carga de água, compensada depois com chá (intragável mas servido com muita gentileza) e um lacinho para o cabelo. Sim, um lacinho. Tudo isto fazia parte do enquadramento da peça. Vejam-na, um dia, e vão perceber.

É claro que tanta água deixa as suas marcas, e segunda de manhã a garganta lá se começou a ressentir. À tarde, antes de mais uma jornada de canil, estava pior. Às 17h, desaba um aguaceiro que quase faz desabar o próprio canil. Pronto, vá, só foram alguns galhos.
Missão: resgatar os animais do perigoso passeio. Voluntárias para a chuva, voluntárias ensopadas.

Aguardei com expectativa o que o dia de hoje ia trazer, mas eis que a dor desapareceu e os primeiros sintomas de gripe parecem abrandar.

Há dias assim, de sorte.

(A imagem veio daqui, também a propósito de uma Feira do Livro)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Brasil e Uganda nos extremos do arco-íris














Alexandra Lucas Coelho deu ontem a conhecer no PÚBLICO o Brasil "mais livre e democrático" nascido de uma deliberação do Supremo Tribunal que reconhece, por unanimidade, "a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar". Uma breve passagem pelo texto permite concluir que a homossexualidade ainda é vista com desconfiança, para recorrer a um eufemismo, por boa parte dos brasileiros. No país do Carnaval, conta a repórter, há casos de travestis assassinados em todas as cidades. Não surpreende, por isso, que a decisão seja considerada histórica e provoque uma onda de esperança quanto à diminuição da violência em relação aos homossexuais.

Do outro lado do Oceano, no Uganda, o parlamento poderá aprovar, dentro de algumas horas, um projecto de lei que prevê a aplicação da pena de morte a homossexuais. Junte-se a esta proposta uma outra: a de atribuir uma pena até 3 anos de prisão a quem for conhecedor de casos de homossexualidade e não os denunciar às autoridades. Depois do assassinato de um activista LGBT, a aprovação desta lei incentivadora da bufaria e do pânico generalizado pode ser o mote para uma escalada brutal da violência.
A petição para tentar evitar um tamanho desrespeito pelos direitos humanos corre aqui.
Veremos se o Uganda também acorda mais livre.

domingo, 13 de março de 2011

Manual de governo ou a fúria neoliberal em 12 passos


A Visão desta semana traz um resumo das ideias de Pedro Passos Coelho para o país em 12 áreas fundamentais. Uma espécie de roteiro pelo Portugal laranja, algo que vai tomando uma forma cada vez mais consistente.
Se algumas ideias até parecem formas simples de acabar com inúteis sorvedouros de dinheiro público (como o fim dos Governos Civis), outras fazem a deriva direitista do governo Sócrates parecer um estágio. Ora vejam:

"Baixar os impostos sobre os lucros em vez de atribuir subsídios".

"Criar um regulador das escolas, para permitir antecipar os ganhos de performance à medida que o Estado se retira da gestão directa da Educação" (esta dos ganhos na educação vão ter de me explicar. Suponho que também não sejam para tributar...)

"Reduzir os pagamentos por trabalho ao fim-de-semana e feriados, como alternativa ao corte e salários" (e cortar nos salários dos patrões, não?)

"Apostar nas eólicas offshore [em mar-alto] dando concessões a empresas nacionais e estrangeiras" (desculpe, mais offshores?)

E a minha preferida:

"Permitir a redução de salários durante um período de 18 meses em caso de dificuldades financeiras extremas das empresas. Estas deverão compensar as perdas quando regressarem aos lucros" (ponto número 1: como se define uma situação de dificuldade financeira extrema e quem tem legitimidade para a declarar? Ponto número 2: será que Pedro Passos Coelho e os seus conselheiros não vêem que essas dificuldades financeiras extremas se vão transferir para as famílias? E que estas, por conseguinte, vão perder ainda mais poder de compra e contribuir para a estagnação da economia?)


O dia da unidade


Era o protesto da geração dos recibos verdes, dos estágios não remunerados e da casinha dos papás. Mas não faltaram rugas nem carrinhos de bebé. Pais apreensivos a ver por água abaixo um futuro para os filhos em que tanto investiram; pais precários a ver com apreensão que futuro podem proporcionar aos seus filhos que ainda não largaram a chucha.

Cartazes, palavras de ordem, velhos slogans, novos hinos e fórmulas reinventadas ("O povo passivo jamais será unido").
Artistas e bolseiros de investigação científica desfilaram lado a lado da Praça da Batalha à Praça da Liberdade, no Porto. Uns cheios de garra, outros quase em ritmo de passeio. Afinal, a miséria ainda não tomou conta deles, e isso via-se pelas inúmeras máquinas fotográficas que documentavam o momento, inalcançáveis para alguns bolsos.

Ainda assim, há quem conte os tostões e quem não se possa dar ao luxo de fazer planos de futuro.
Há até quem sirva uma respeitável instituição pública e depois veja parte dos seus esforços extra, de fins-de-semana e feriados, habilmente desviados para os bolsos dessa mesma instituição, pública, sim, até ver.

Neste 12 de Março, o protesto da Geração À Rasca, foi, afinal de contas...geracional. E transversal, pois os ecos fizeram-se sentir por todo o país.
Aguardemos, agora, os próximos capítulos, caso os haja.