terça-feira, 2 de março de 2010

Mai' nada!







Crónica de Paulo Varela Gomes, última sexta-feira, no PÚBLICO.
E está tudo dito.


Morrer como um touro

O Ministério da Cultura resolveu criar uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura a pretexto de que lidar touros seria uma tradição cultural portuguesa a preservar. Mas a tradição é mais antiga, do tempo em que humanos e animais lutavam na arena para excitar os nervos da multidão com o sangue e a morte anunciada. A piedade, que é um valor mais antigo do que Cristo, veio, na sua interpretação cristã, salvar disto os humanos. Esqueceu-se, porém, dos animais.

Há um momento nas touradas em que o touro, muito ferido já pelas bandarilhas, o sangue a escorrer, cansado pelos cavalos e as capas, titubeia e parece ir desistir. Afasta-se para as tábuas. Cheira o céu. Vêm os homens e incitam-no. A multidão agita-se e delira com o sangue. O touro sabe que vai morrer. Só os imbecis podem pensar que os animais não sabem. Os empregados dos matadouros, profissionais da sensibilidade embaciada, conhecem o momento em que os animais “cheiram” a morte iminente. Por desespero, coragem ou raiva (não é o mesmo?), o touro arremete pela última vez. Em Espanha morre. Aqui, neste país de maricas, é levado lá para fora para, como é que se diz? ah sim: ser abatido. A multidão retira-se humanamente, portuguesmente, de barriga cheia de cultura portuguesa, na tradição milenar à qual nenhuma piedade chegou. Os toureiros têm pose que se fartam (e com a qual fartam toda a gente). Pose de hombre, pose de macho. Mas os riscos que de facto correm são infinitamente menores que a sorte que inevitavelmente espera os touros, que o sofrimento e a desorientação que infligem aos touros para o seu próprio prazer e o da multidão. Dá vontade de dizer que quem se porta assim, quem mostra orgulho de se portar assim, tem entre as pernas, e não apenas literalmente, órgãos bem mais pequenos que aqueles que os touros exibem. Os toureiros são corajosos mas entram na arena sabendo que haverá sempre quem os safe, senão à primeira colhida, então à segunda. Às vezes aleijam-se a sério e às vezes morrem, o que talvez prove que os deuses da Antiguidade são justos, vingativos e amigos de todos os animais por igual.

Os touros, esses, não têm ninguém que os vá safar em situação de risco, estão absolutamente sós perante a morte. Querem os toureiros ser hombres até ao fim? Experimentem ser tão homens como eram os homens e os animais na Antiguidade: se ficarem no chão, fiquem no chão. Morram na arena. É cultura. A senhora ministra da Cultura certamente compensará tão antigo costume.
Também era da tradição, em Portugal por exemplo, executar em público os condenados, bater nas mulheres, escravizar pessoas. Foi assim durante milénios. Ninguém via mal nenhum nisso a não ser, confusamente, com dúvidas, as próprias vítimas. Até que a piedade, na sua interpretação moderna e laica, acabou com tão veneráveis tradições.
Que será preciso para acabar com a tradição da tourada? Que sobressalto do coração será necessário para despertar em nós a piedade pelos animais?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Já desistiam, não?










Há vários meses que ando a receber e-mails de membros de uma (ou mais, nem consegui perceber) organização religiosa, a pedir notícias sobre qualquer coisa que não imagino o que seja e com despedidas do género "Oremos", Deus para cá e Cristo para acolá. Pela grafia e nome de uma região mencionada, as missivas vêm do Brasil. Já respondi a um desses contactos, explicando que não era a Cátia Vilaça pretendida (se bem que não posso deixar de me divertir com a ideia de ter uma homónima beata) e a coisa ficou resolvida...ou talvez não. Há outra senhora (daí que eu ponha a possibilidade de se tratar de mais de uma organização) a enviar e-mails constantemente, pedidos de amizade para não sei o quê e de notícias sobre algo totalmente desconhecido para mim. A primeira resposta que formulei não serviu de nada. Ignorou-me despudoradamente. Temi vírus, mas não havia anexos. Agora temo conspirações com objectivos de conversão, o que me parece ainda pior. Já enviei outro e-mail, veremos se baixa as armas.
Hey, não percam tempo comigo, pode ser? Obrigada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Disco riscado














Isilda Pegado é uma mulher persistente, isso ninguém lhe tira. Mas a persistência dela cansa. Depois de aprovada a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a jurista ainda não se cansou de brandir com a bandeira do referendo. Mais uma vez, os seus argumentos giram em torno da "liberdade". Diz a senhora, citada hoje pelo PÚBLICO, que "só vai a referendo aquilo que o poder tem a certeza de ganhar", comparando o exemplo à actuação de Salazar aquando da aprovação da Constituição de 1933.
Se Isilda está tão preocupada com a liberdade do povo, por que quer usar essa liberdade para dar uma machadada nas liberdades cívicas dos homossexuais?

(A foto é de Pedro Cunha)

domingo, 31 de janeiro de 2010

O que aconteceu e o que podia ter acontecido



Joan Didion faz questão de nos lembrar que o seu drama podia ser o nosso. "Podia-vos ter acontecido", repete Eunice Muñoz em várias passagens de O Ano do Pensamento Mágico, peça através da qual Joan nos relata o ano que se seguiu à morte do marido e da filha. A certa altura, Joan tenta tranquilizar-nos, dizendo que não significa que vá mesmo acontecer. Mas a semente está lançada. No palco, vemos Eunice e imaginamos Joan, mundo desmoronado. O realismo da situação, do qual os pormenores das doenças e autópsia não nos permitem escapar, colocam-nos perante a tragédia, perante uma tragédia que podia ser a nossa.
O trabalho de Joan mostra-nos a forma que aquela mulher encontrou de enfrentar a dureza da perda, e mostra-nos a capacidade de partilhar essa dor connosco e com todas as "Eunices" que a encarnaram. E nós, que faríamos?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A carne de cão, a carne de vaca e os falsos moralismos













Chegou-me por email a notícia de que a China está prestes a proibir o consumo de carne de cão e gato. Parece que já há jusristas a trabalhar num projecto-lei que prevê a aplicação de coimas até 5 mil euros e 15 dias de detenção a quem prevaricar.
Sempre que o assunto é o consumo de animais (para nós) de estimação, vejo repetirem-se as palavras de desaprovação e choque. Alguém é capaz de me explicar por quê? Entendo perfeitamente que seja difícil conceber a ideia de degustar um pitéu feito com o Bobby lá de casa, o que não me entra é o facto de haver quem se ache no direito de apontar o dedo a essa prática, quando o "apontador" é também consumidor de animais que sofrem as mais inimagináveis torturas antes de chegarem aos respectivos pratos. Uma visitinha a alguns matadouros e aviários talvez abrisse os olhos a muita gente. "Olha-m'esta a pregar o vegetarianismo", pensam vocês. Não (não é que seja má ideia, mas não é esse o objectivo primordial). Era só mesmo apelar ao respeito e a não entrar por falsos moralismos.

Quanto ao impacto e motivações para a medida chinesa, muito poderá especular-se. Tentativa de ocidentalização, ou pelo menos de sossegar os ânimos falsamente moralistas aqui do ocidente? E o impacto? Como serão tratados os bichos se o consumo passar a ser clandestino? O que os olhos não vêem...

A notícia pode ser consultada aqui


A foto foi "pescada" do blogue Respeito à Natureza

domingo, 17 de janeiro de 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Regressos


















Custa interiorizar a ideia de deixar algo que nos marca profundamente. Confesso: sou saudosista. Guardo papéis, papelinhos, papelões, tralhas, lixo, no fundo, mas ao menos é lixo com história. Vejo-me à rasca para deitar fora jornais que não quero amputar fazendo recortes e que se vão avolumando de uma forma que torna penosa a ideia de fazer os ditos. Não faço bases de dados digitais e também não há nada nada como o toque e o cheiro para nos levar de volta àqueles momentos.
E é ainda com a cabeça nos maravilhosos três meses que findaram em Dezembro que me encontro em processo de readaptação. A ABRA voltou, a Universidade está a voltar e agora é mergulhar nos livros novamente até sair daqui um relatório sobre...os três maravilhosos meses. Porque infelizmente não basta vivê-los. Depois...depois é tentar repeti-los aqui e ali.

(A imagem foi retirada do blogue Janela de Cima)