domingo, 19 de maio de 2013

Co-adopção: o primeiro de muitos passos


A primeira palavra que me ocorreu para caracterizar este projecto de lei foi incipiente. Trata-se, afinal, de regulamentar uma situação existente, ao invés de reconhecer os direitos cívicos que deveriam ser de todos os cidadãos.

Uma abordagem mais racional obriga-me, no entanto, a reconhecer que de outro modo talvez não se conseguisse nada. Tem de ser aos poucos, não é verdade?

Tiro, portanto, o chapéu à persistência de Isabel Moreira, e acredito que a deputada "rebelde" ainda possa ter mais cartas na manga.

Gostaria, também, que certas esquerdas deixassem de fazer disto um problema (sim, eu sei que votaram a favor, mas foi só porque não estava em causa uma mudança a sério) e se deixassem de ideias peregrinas acerca de debates na sociedade sobre assuntos onde não cabe nenhum debate. É de igualdade de direitos que estamos a falar, e esses não são de esquerda nem de direita. Deixem-se de atavismos.

No limite, até é de direitos das crianças que estamos a falar. Não há catrefadas de crianças institucionalizadas? Então por que é que se nega à partida a possibilidade de adopção a uma fracção da população, sem sequer escrutinar essas pessoas? Sim, porque quem se candidata a adoptar é necessariamente escrutinado, enquanto que quem decide ter um filho pelos métodos tradicionais (quando decide) não tem uma comissão de avaliação de capacidades parentais à porta.

Deixem ser pais a quem o deseja e ainda por cima tem de provar que é capaz.

terça-feira, 5 de março de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A linha do Vouga


A ferrovia mexe comigo. Há qualquer coisa num par de carris a atravessar um monte, uma povoação ou uma estrada que me enche as medidas, por assim dizer. Há também o facto de ter familiares (um deles já cá não está) a trabalhar na CP. Há qualquer coisa de bucólico e de melancólico em tudo isto.

Ainda não conhecia a linha do Vouga. Passei a conhecê-la numa visita de trabalho a São João da Madeira. Fiquei também a conhecer o desapego pela ferrovia fora do eixo Braga-Faro (já tinha ouvido falar dele, mas vê-lo é outra coisa). Os apeadeiros, como este, parecem parados no tempo. Em São João da Madeira a bilheteira abre uma vez por mês para renovação de assinaturas, mas aquela não parecia ter uso há muito tempo. O relógio, parado. Só a instalação solar fotovoltaica demonstrava que alguém deste tempo tinha lá estado.

Quanto ao comboio propriamente dito, palavras para quê?




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Voos da CIA: afinal era verdade

Acabou o tabu: os voos da CIA passaram mesmo por Portugal. Ana Gomes e todos os que levantaram suspeitas estavam certos. A informação foi revelada pelo relatório "Globalizing Torture", da Open Society Justice Initiative, que identifica os 54 países envolvidos no programa secreto de detenção e transferência de passageiros da Administração Bush. Em Portugal, houve mais de 100 escalas, onde se incluem voos com prisioneiros de e para Guantánamo.

Entre as 136 pessoas submetidas a tortura encontra-se Ibn al-Shaykh al-Libi, um operacional da Al-Qaeda líbio cujo interrogatório, conduzido com métodos coercivos, levou a uma informação de, digamos, inestimável valor: a disponibilização, por parte de Saddam Hussein, de armas químicas e biológicas aos militares da Al-Qaeda. A falsidade da confissão foi admitida pelo prisioneiro. A consequência é por demais conhecida. Parece que só falta mesmo a punição de quem permitiu uma e outra.

Nota: A "revelação", em primeira mão, sobre as armas de destruição maciça, veio de Rafid-al-Janabi, um mentiroso compulsivo que terá assistido à produção das ditas mas que, afinal, era só taxista (ler Visão nº 1045)

Imagem: www.uclouvain.be

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

No PÚBLICO de hoje... Ainda há esperança?

 

Quando Cristo foi crucificado por volta do ano 30/32 da nossa era, o Império Romano ocupava uma vasta área que abrangia desde a Ásia Menor até à Península Ibérica, incluindo a maior parte da Europa e todo o Norte de África. Com o correr dos tempos, e devido à inevitável vitalidade que as línguas têm como coisas vivas que são, o latim popular falado na Dácia acabou por se transformar no actual romeno, tal como o falado na Itália no actual italiano, na Gália no actual francês, na Hispânia no catalão, castelhano, galaico-português, etc., etc.
Durante algum tempo o latim da Roma originária manteve uma aparência de identidade sustentada, sobretudo desde que a Igreja o adoptou como língua eclesiástica e litúrgica antes do início da Alta Idade Média; mas mesmo esse foi sofrendo alterações ao ponto de um estudioso de latim clássico ter dificuldade em entender um texto em latim eclesiástico do século XII ou XIII, por exemplo.
Imaginemos que um folgazão dessas eras, insuflado de ideias “ortografistas”, se lembrava de tentar impor ao latim de Roma uma “grafia unificada” misturando, com as inerentes “facultatividades”, as formas do latim popular gaulês, dácio, lusitano, itálico… Só esta ideia tonta dá vontade de rir, e obviamente nenhum estudioso no seu juízo perfeito a consideraria, a menos que se tratasse de um escritor de ficção científica que inventasse uma novela de “história alternativa” passada num universo paralelo, onde esse caricato fenómeno tivesse ocorrido com todas as suas delirantes (e quiçá interessantíssimas) consequências.
Bom, tudo é possível no fantástico universo das ficções, e tal fantasia até poderia dar origem a um trepidante filme em 3-D com imaginosos efeitos especiais e outros truques que encantassem as plateias.

Ora, por muito estranho que pareça, é isso mesmo que estamos a viver actualmente: um delírio de “ficção científica alternativa”, por obra de uns quantos políticos que decidiram reescrever a nossa história linguística sem atender às naturais e progressivas diferenças por que vai passando uma língua-mãe ao expandir-se no mundo, e à medida que os anos e os séculos transcorrem.
Não é possível espartilhar uma língua viva num colete de forças artificial e grosseiramente político fingindo que a língua-mãe e as línguas-filhas se vão manter sempre iguais e agrilhoadas a um mesmo “acordo”, parido por um pequeno grupo de minicérebros demenciais que não entendem o que é o futuro e, dentro da sua pequenês, só vêem uma estreita nesga do presente.
Tal como o latim irradiou de Roma para o mundo, o português irradiou de um ponto preciso da Europa, Portugal, e, à semelhança do latim do Império Romano, foi-se instalando em diversas geografias e mesclando-se com as respectivas etnias, línguas aborígenes e culturas, e por conseguinte modificando-se diversamente, consoante as áreas em contacto. É uma lei natural e não há que fugir-lhe.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A minha pequena homenagem a Sassetti



Declaração de interesses: não sou nenhuma entendida em música para avaliar o trabalho de Bernardo Sassetti ou qualquer outro compositor.
No entanto, ouvido todos temos e o meu engalanou-se com ele a 4 de Dezembro de 2010. Sérgio Godinho estava prestes a lançar o mais recente disco, Mútuo Consentimento, e a Casa da Música foi o palco a norte para uma espécie de ante-estreia (Final de Rascunho, como lhe chamou). O trabalho contou com a colaboração de Bernardo Sassetti, e o espectáculo contou com a sua presença.
O tema que aqui vos deixo cativou-me o ouvido pela singularidade. A melodia (encantadora, quanto a mim) parece saída de um universo de Tim Burton. Foi imaginada por Sassetti como "uma valsa macabra, com pessoas a cruzarem-se nas ruas". Sérgio Godinho não deixou a coisa por menos deu forma e voz a esse imaginário assim.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Baixas tarifas e...altas golpadas













Ser hospedeira não era, de todo, o sonho de uma vida. Era uma oportunidade de trabalho como qualquer outra. Bom, como qualquer outra também não, porque a ideia é claramente mais aliciante do que passar horas a fio atrás de um computador.


Foi neste pressuposto que respondi à oferta lançada por uma agência que recruta trabalhadores para companhias aéreas. E a partir deste momento, terei o cuidado de não usar a palavra "oferta" ou de a colocar entre aspas. Já vão perceber.


Concluída com sucesso a primeira etapa do chamado "Open Day" - um teste escrito de Inglês - vinha a apresentação da empresa e as condições de acesso ao posto de trabalho. Note-se que as condições já tinham sido superficialmente apresentadas nos emails que precederam o "Open Day", mas o diabo estava mesmo nos detalhes.


Para se ser hospedeira da Ryanair, é necessária uma formação intensiva de seis semanas. Ora, pela leitura do email, ficava-se com a ideia de que essa formação poderia ser frequentada no Porto ou em Frankfurt/Hahn. Errado, só há formação em Hahn. Para ter acesso à formação, é preciso pagar 500 euros de inscrição (ou 300, para quem conseguisse uma das 10 vagas ainda disponíveis para começar em Março). Esse dinheiro nunca mais volta, mesmo que não consigamos concluir a formação com sucesso ou que desistamos antes de a iniciar.


Depois, é preciso pagar o alojamento e a alimentação (pois, no Porto era tudo mais fácil). Atendendo aos pedidos de várias famílias, a agência conseguiu negociar um "simpático" preço de 700 euros pelo alojamento dos pupilos durante as seis semanas. Antes, os futuros tripulantes tinham de procurar o que houvesse. Quanto à alimentação, se forem bem comportados, cozinharem em casa e não cometerem excessos, não vão precisar de gastar mais de 250-300 euros. Ou seja, 1500 já foram e os moços ainda nem começaram a trabalhar. A isso, há ainda que juntar a mais grossa fatia do bolo: o custo da formação. Para quem quiser pagar adiantado, 1649 euros chegam. No entanto, quem achar que já gastou demasiado não precisa de se preocupar: o dinheiro é descontado do ordenado. O problema é que aqui já não são 1649, mas cerca de 2000. Ninguém vos manda pagar em prestações, ora!


A boa notícia é que quem não passar no curso, não tem de o pagar. Ufa!...


Depois de ser depenado, o aplicado pupilo está oficialmente preparado para voar. E para começar a procurar alojamento barato nas imediações da base onde for colocado. Tem de ser mesmo barato, porque ainda têm de sobrar 7,5 euros para pagar por viagem. Mas não se preocupem. Estejam atentos às promoções e uma vez ou outra ainda vos vai compensar viajar com bilhete de passageiro.


Animem-se: só terão de pagar durante os nove meses de voo ao ano, porque nos restantes três estarão a "gozar" de licença sem vencimento. Não querem? Azar! Há alturas em que faltam voos e sobra pessoal, portanto não terão outro remédio.


Depois de tão demolidoras condições, houve um momento em que me senti culpada por viajar na Ryanair. Sim, porque eu apenas tenho possibilidade de viajar na companhia, não de trabalhar lá. No entanto, esse peso na consciência acabou por não martelar assim tanto. Afinal, havia candidatos que, não tendo entrado à primeira, estavam lá para tentar outra vez. Não fui a única a desistir, é certo, mas também havia quem achasse tudo aquilo muito normal.


Por último, uma nota importante: não sei quanto a Ryanair lucra com isto, porque é preciso não esquecer que se trata de uma agência de recrutamento, que é quem paga os ordenados. Depois, se a a Ryanair gostar muito, mas mesmo muito dos tripulantes, há a possibilidade de assinar um contrato directo, e aí as condições já serão outras.