sábado, 4 de fevereiro de 2012

D. Palmira

















Conheci D. Palmira há um bom punhado de meses durante uma viagem de comboio. A razão para só agora escrever sobre ela é aquela que infelizmente usamos para muita coisa: "depois faço isso". Com o "depois" vem a inevitável perda de memória e de detalhes interessantes, mas quanto a isso já nada posso fazer. Apenas me redimo escrevendo o possível.

D. Palmira apanhou o comboio da Linha do Douro no Porto para sair em Peso da Régua, e eu "apanhei-a" em Ermesinde ao trocar de linha. D. Palmira vinha acompanhada de duas amigas, as três dispostas a gozar um belo dia de sol na Régua.

Sentei-me na cadeira vaga para logo perceber que D. Palmira não tem papas na língua. Dos gracejos sobre tocas e coelhos alusivos às recente eleições legislativas, a conversa fluiu para a família e divertimentos. D. Palmira não perde um passeio ou excursão, mesmo que isso implique prescindir da lida doméstica. Afinal a casa é arrendada, e o lixo bem se pode varrer para baixo do tapete. Os autocarros e os comboios é que não esperam por ela.

D. Palmira é tão desembaraçada com o lazer como com a família. Da filha, diz que é gorda, para logo acrescentar que não o seria se não dormisse até ao meio-dia. Já os netos, só querem dinheiro. E os bisnetos, que será deles? Sim, porque D. Palmira já os tem.

Mas não é neles que D. Palmira pensa agora. Pensa nas frutas que vai comprar e no que mais vai fazer ao chegar à Régua, que o comboio já se aproxima.

"A menina onde sai?"
"No Pocinho."
"É uma viagem muito bonita, temos de lá ir."

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